Atalhos

Mito do aumento salarial e IRS



Em conversa recente com um médico tive oportunidade de verificar que um antigo mito relacionado com aumentos salariais persiste. Dizia este médico que alguns dos seus colegas se recusavam a fazer horas-extraordinárias, pois o aumento salarial fazia com que subissem de escalão de IRS, o que, afirmavam eles, tornava o rendimento líquido total menor. Até que ponto é esta afirmação verdadeira?

Característica progressiva do IRS

O IRS é um imposto de natureza progressiva, o que significa que rendimentos elevados são tributados a uma taxa mais elevada, mas por intervalos.

Por exemplo, um rendimento colectável de € 21.000 anuais é tributado da seguinte forma: € 7.000 * 14,5% (1º escalão) + € 13.000 * 28,5% (2º escalão) + € 1.000 * 37% (3º escalão) [€ 7.000 + € 13.000 + € 1.000 = € 21.000]. Ou seja, quando se passa dos € 20.000 para os € 21.000 apenas o aumento acima do escalão (€ 1.000) é tributado a uma taxa mais elevada.

Esta progressividade garante que um contribuinte NUNCA fica com um rendimento líquido mais pequeno ao receber mais.

Mas…

Como quase todos os mitos, também este tem uma parte curiosa, que deve ser tida em conta, ainda que muito dificilmente fará com que rejeitar qualquer aumento seja uma decisão economicamente racional.

Ao contrário do que acontece com o cálculo de IRS anual, as retenções mensais de IRS não proporcionam efeito progressivo. Assim, pequenos aumentos salariais podem tornar o rendimento líquido mensal mais baixo, ainda que esta situação seja posteriormente corrigida aquando da declaração de rendimentos anual de IRS (Modelo 3).

Caso exemplo

Utilizando as nossas ferramentas da Calculadora do salário líquido e do Simulador de IRS, vamos exemplificar esta situação, com o seguinte cenário:

Contribuinte solteiro, sem dependentes, com salário bruto mensal de € 1.295 (€18.130/ano), que passará a ganhar € 1.305/mês (€ 18.270/ano).

Resultados*

Salário
bruto
Taxa retenção IRS Salário líquido
mensal
Salário bruto
anual
IRS anual Rendimento
líquido anual
Base € 1.295 16,50% € 1.081 € 18.130 € 3.054 € 15.076
Aumento €
10/mês
€ 1.305 17,50% € 1.077 € 18.270 € 3.099 € 15.171
Diferença € +10   € -5     € +95

* Excluindo contribuições para a Segurança Social

Como se verificar no quadro acima, em certos cenários de pequenos aumentos salariais brutos (€ +10), o salário líquido mensal pode efectivamente descer (€ -5), mas tratar-se-ão sempre de pequenas diferenças, que serão ajustadas e acertadas na declaração de IRS anual (€ +95).

Conclusão

Qualquer aumento salarial provoca necessariamente um aumento do rendimento líquido, em termos anuais. Pequenos aumentos salariais podem contudo provocar uma pequeníssima descida do salário líquido mensal, o que será posteriormente corrigido na declaração anual de IRS.

Dito de outra forma, não existe cenário realista em que financeiramente compense abdicar de qualquer aumento, por muito pequeno que seja.

Última actualização: 27/04/2015

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44 comentários a Mito do aumento salarial e IRS

  1. Pedro Viana Junho 2, 2015 at 12:22 #

    Olá Pedro,

    Estou totalmente de acordo consigo em relação ao sector privado e discordo ligeiramente do que diz quando falamos do sector público.
    O discordar ligeiramente não se deve ao facto do aumento da % IRS retido na fonte, mas sim ao corte que é efetuado diretamente nos salários.
    Um funcionário que tenha um vencimento de 1450 euro e ganhe 50 euros de horas extra vai atingir 1500 euros, que é o primeiro patamar para o corte no salário. Este corte de 3,5% vai-lhe retirar 52,5 EUR, fazendo com que apesar de ter trabalhado mais um turno passe a receber menos 2,5 EUR do que se não tivesse trabalhado esse turno extra.

    Em resumo:
    Vencimento Mensal 40 horas – EUR 1450
    Vencimento Mensal 40 horas + 8h turno extra – EUR 1447,5

    Era isto que com certeza o médico lhe queria ter dito, mas que não lhe conseguiu explicar convenientemente.

    Cumprimentos
    Pedro Viana

    • André Teixeira Agosto 26, 2015 at 12:32 #

      Se não estou em erro, o corte é apenas para a parte do rendimento que está acima de 1500 €. Ou seja, para uma pessoa que ganhe 1501€, será um corte de 3,5% sobre 1 €, i.e., 4cents.

    • Zukunft Agosto 26, 2015 at 17:16 #

      É o que faz sentido. O corte aplica-se para os valores a cima de 1500€.

  2. Filipe Alves Junho 5, 2015 at 10:44 #

    Até 1500€ não há cortes na função pública, só quem ganhar acima dos 1500€. E não pode ganhar menos do que os 1500€.
    E as horas extras não contam como vencimento base. Porque esse último é que é cortado. E como foi reposto 20% dos cortes, o corte é, no mínimo, de 2,8%, não 3,5%.

    Quem recebe uma “remuneração total ilíquida” entre 1.500 euros e 2.000 brutos passa a ter um corte de 2,8%, em vez dos actuais 3,5%. Entre os 2.000 euros e os 4.165 euros os cortes que variavam entre 3,5% e 10% passam a oscilar entre 2,8% e 8%. Acima dos 4.165 euros brutos o corte é de 8%.

  3. Pedro Junho 9, 2015 at 21:25 #

    Desculpe mas isso não é verdade. As horas extra na função publica implicam aumento no desconto do ordenado base. Acrescido do mesmo desconto no valor das horas extra!
    Tenho 2 recibos de um funcionário à minha frente, 1 sem horas extra tem uma redução (roubo) de 3,09% no vencimento base, outro do mes seguinte com horas extra tem uma redução de 4,365% no vencimento base + a mesma redução no valor das horas extra…
    O insólito é que quanto mais trabalhar menos vai receber no vencimento base! Além de receber cada vez menos por cada hora de trabalho extraordinário!

  4. Pedro P. Junho 22, 2015 at 20:19 #

    Sim, é tal como o Pedro referiu, os cortes aplicam-se na massa salarial global . mais a mais é feita uma dupla tributacao ainda mais penalizadora, é que o IRS e SS incidem sobre o salario ( mass salarial ) bruto antes dos cortes, assim que quanto maior a massa salarial antes dos cortes, maior será não só o corte , que ja leva a vencimento liquido menor, como os descontos.
    Isto é dupla tributacao e dá este absurdo, duas vezes ilegal. Mas é Portugal

  5. Artur Gaio Julho 27, 2015 at 10:51 #

    Atenção: o exemplo que apresenta não está completamente correto. Sou enfermeiro e funcionário público e já passei por situações desse género. Se o meu base atingir os 1500 euros, seja por horas extraordinárias, ou por muitas horas de qualidade (noites e fins de semana), a incidência é maior, mas a penalização só será possível até 1500 euros. Ou seja, se eu receber 1501, o dseconto que me é aplicado é de 1 euros, se receber 1530, o desconto é de 30 euros. No entanto, com muita pontaria, pode dar-se a situação de fazer horas extraordinárias até atingir um base de 1545 euros, por exemplo e na prática receber 1500, pelo que basicamente essas últimas horas foram de graça…

    • Pedro Pais Julho 27, 2015 at 11:08 #

      Ainda que isso aconteça, aquando da declaração de IRS a situação fica corrigida. Mantenho que é certo que qualquer aumento de ordenado resulta num maior rendimento depois de impostos, ainda que tal só se verifique em termos anuais.

  6. Sousa Setembro 1, 2015 at 17:20 #

    Só para deixar claro que não foi reposto nenhuns 20% da sobretaxa, a mesma está a ser cobrada a 3.5% acima dos 1500€… Experiência própria…

    • Wakka Setembro 14, 2015 at 15:11 #

      Mas qual reposição? A reposição começará em 2016!!! Ainda estamos em 2015…

    • Zukunft Setembro 14, 2015 at 15:42 #

      Está-se a falar da função pública.

  7. Neves Dezembro 23, 2015 at 4:36 #

    Por vezes pequenos aumentos podem fazer perder certos apoios escolares dados aos filhos, aumentando a despesa.

  8. couto Janeiro 13, 2016 at 8:56 #

    Duvida
    Posso descontar menos para irs do que está na tabela?

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